O portão

Por Binson

Sentado no chão ao lado de sua cabana no alto da montanha, observando a lua, o velho pensou:

— Vou voltar para a aldeia.

Apagou a fogueira, se esticou e absorveu mais uma vez a vista da planície vazia iluminada pelo luar. Então bocejou, foi para dentro de seu abrigo e deitou-se no colchão de palha. Fechou os olhos, escutou o pio de uma coruja e adormeceu.

Despertou com a claridade dos raios de sol que entravam pela janela aberta. Levantou para banhar-se na fonte a alguns passos de sua morada. Mais tarde, ao beber um caneco de leite de cabra, tentou calcular quantos anos se passaram desde que se retirou para a solidão.

Vestiu suas sandálias, pegou seu cajado, soltou os animais, deu uma última olhada à volta, suspirou e seguiu para a trilha que descia em direção ao povoado. Esse caminho de pedra estava inalterado, apesar do tempo passado, o que tornou tranquila a transposição.

Chegou ao pé da montanha e seguiu para a ponte que atravessava o rio, levando à vila. Já do outro lado, avistou algumas casas onde antes não existia nada. Havia mais gente nas ruas, muitos comerciantes e carroças demais. Percebeu que algumas pessoas se assustavam com ele.

— É a minha aparência — pensou — mas isso é para mais tarde.

Já perto do centro viu a igrejinha que agora tinha uma torre com um sino. A casa estava somente a alguns minutos de caminhada. Ao chegar, abriu a portinhola no muro baixo e andou pelo caminho cercado de canteiros até a porta na varanda. Alí, os vasos de flores estavam tão bem cuidados quanto sempre estiveram. Ouviu um latido, virou para trás e viu o cachorro, que parecia sorrir para ele.

Parou por um momento, endireitou-se e bateu na porta. Ouviu então passos que pelo som sabia de quem eram. Sentiu apertar o peito. A porta se abriu. Os olhos se olharam.

— Eu voltei.

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O Plano Perfeito

Por Binson

Era um grande projeto. Abalaria o destino da nação. Redefiniria o conceito de genial. Uma ideia perfeita que surgiu num estalo na cabeça na Arnaldo enquanto ele preparava ovos mexidos para a sua avó.

Tudo que ele tinha que fazer agora era planejar, definir metas, colocar um prazo. Falar com as pessoas certas. Daria certo, sim. Ele queria fazer isso acontecer.

— Amanhã eu começo. Primeira coisa do dia.

Pegou as chaves do carro e foi para o trabalho. Tinha muito a fazer, então o dia voou. Chegando em casa, cansado, engoliu um prato de macarrão e foi para a cama.

De manhã, acordou com a vó chamando:

— Arnaldo vai se atrasar pro trabalho!

Pulou da cama. Só teve tempo de tomar um banho e sair correndo. Mais tarde, enquanto esperava pela comida no boteco, pensou novamente em seu intento. Sim, era um programa perfeito. Iria começar no fim de semana, melhor, mais tempo.

Mas no fim de semana recebeu uma visita do irmão e novamente não teve tempo. Passaram-se os dias. Arnaldo sempre deixava para depois. Era um compromisso, um contratempo, um imprevisto, um cansaço, sempre havia um motivo. Passaram-se os meses. O esquema de Arnaldo já não ocupava tanto a mente dele. O dia-a-dia começou a preencher novamente o seu ser.

E assim, aos poucos, quase sem que Arnaldo percebesse, aquele desígnio foi sendo abandonado. E depois esquecido, como se nunca tivesse existido.

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Violeta (da série e-mails não enviados)

Por Juliano Barreto, do Resenha em 6

Tenho mania de escrever e-mails quando estou magoado ou ansioso. Escrevo, reviso e não mando. Alguns eu guardo, outros eu apago. É terapêutico e ajuda a exterminar umas fantasmas. Fiquei imaginando como seria se outras pessoas fizessem isso, e escrevi esse texto. Escrevi outros em cima dessa mesma ideia (todos podem ser lidos aqui).


De: Fernando Dias
Enviada em: segunda-feira, 23 de maio de 2008 23:26
Para: Adriana Pinheiro
Assunto: A Violeta não dá flor

Hoje faz um ano que vivo sem você. Ainda assim encontro pela casa presentinhos que trocamos. Tropeço em bilhetes, doces, livros, fotos. Na varanda, um dia desses, encontrei aquele vaso de violeta vagabunda que comprei na feira. O dia em que trouxe essa planta para casa, eu acordei mais cedo que você. Comprei fruta, comprei queijo, comprei até essa florzinha. Te acordei com café da manhã na cama.

Não fiz aquilo para me desculpar ou para agradecer. Fiz porque gostava muito de mimar você. E, claro, dos carinhos que isso rendiam para mim depois. Mas, porra, não fazia uma coisa pensando na outra. As duas partes eram ótimas. Só não sabia que uma dependia bastante da outra. Só mimar sem ser mimado é uma merda. Dá um vazio filho da puta. Sensação de incompetência, certeza de que tudo está perdendo a intensidade. Acabou a surpresa, o sorriso, aquela ideia de que está com a pessoa certa.

E acabou mesmo, tanto que faz um ano que nem nos vemos mais. Capaz de nos vermos na rua e nem nos reconhecermos. Claro que ao ver você, vou saber quem você era. Não vou saber quem você é hoje. Faz um ano, parece que faz mais. Tem dias em que sinto saudades. Esqueço que tínhamos problemas. Esqueço que você nunca regou aquela violeta. Esqueço que você não achou nada demais, que elas não fizeram efeito algum nem ficaram na sua memória por mais de três minutos.

Esqueço os motivos que fizeram com que nós nos separássemos. Mas lembro com detalhes nítidos como eu me desfiz da alegria mais boba e mais pura, do otimismo e do amor de final de filme naquela manhã em que te dei flores e você não me deu nada em troca. Isso tudo me fez lembrar que nunca mais comprei flor para ninguém. E acho que nem vou comprar. No final, quem vai ter que regar aquela bosta que não floresce sou eu.

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Ex-namorada

Por Felipe Tazzo

A gente se sente canalha, a gente se sente Zeca Pagodinho, a gente se sente Peréio, a gente se sente o malandro do Chico Buarque porque a gente acha que vai ser só uma aventura, uma noitada e depois a gente vai voltar para casa, onde os chinelos, o jornal e o cachimbo aguardam mornos.

A gente acha que vai acordar de ressaca e borrado de batom mas depois vai brincar com o cachorro em casa como se nada tivesse acontecido.

A gente acha que vai ter que passar pelo cruel exercício de enumerar todos os defeitos e os problemas que levaram à morte dessa relação, porque se não fizer isso, é capaz de encalhar numa aventura sem futuro.

Mas de repente a noitada leva ao café da manhã. E depois do café da manhã, tem outro cachorro para brincar, e um almoço seguido de um outro cachimbo, jornal e a sensação de familiaridade surge tão rápida que a gente nem percebe a segurança de estar onde está.

E aí a sensação de canastrice passa e a gente se perdoa por ter ido embora para começo de conversa.

A gente se sente em casa, de volta à rotina. Mas nessa rotina, uma semana nunca é igual à outra. Há sempre uma nova aventura, uma madrugada, uma conquista, um coração partido, uma vitória ou um desastre.

Não é a ex-namorada perfeita?

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Quer CPF na nota?

Por Juliano Barreto, do Resenha em 6

Faz uns meses, Claudia acordou cedo para fazer uma entrevista de emprego numa grande rede de supermercados. Ela e uma centena de outras pessoas entraram numa fila enorme esperando qualquer vaga, de faxineira, de estoquista ou de qualquer outra função. Ela deu mais sorte do que esperava, foi contratada como caixa. De segunda à sábado, com direito à cesta básica, hora do almoço e até assistência odontológica.

Claudia estava feliz da vida e já sabia de cabeça os códigos para pesar mamões, tomates e maçãs. Achava engraçado que muita gente misturava duas variedades de maçã para tentar enganá-la e ela, sem falar nada, cobrava a mais cara. Rapidamente, também já havia aprendido a parar de pensar e só falar o que era para falar na hora que era para falar. Bom dia, quer nota fiscal, faltou algum produto? Mas ela era curiosa desde criança, não conseguia deixar de prestar atenção nas compras dos clientes.

Sentia inveja quando via alguém levando um saco grande de camarão, um monte de cerveja e queijos e pães e doces coloridos. Tudo isso em plena terça-feira, nem era domingo! Também sentia pena quando via um cara bonitinho levando uma garrafa de 600 ml de coca cola zero e uma lasanha congelada. Além do cardápio solitário, parecia que o bichinho não sabia viver sem a mãezinha dele. Toda noite, poucos minutos antes do mercado fechar, ele adentrava os corredores após chegar em casa e ter visto que não havia nada para comer.

Mas o mais legal para Claudia era imaginar o que seriam aquelas compras gigantes, só com uns dois ou três itens repetidos às dezenas. Três carrinhos inteiros lotados de papeis higiénicos, dos mais baratos. Haja bosta! Um casal de velhos comprando duzentos litros de leite integral e duzentas mil caixas de seleta de legumes. Será que eles vão viver para comer tudo isso? Será que compraram só porque estava na promoção? Será que eles têm uns 30 gatos?

Tem também umas compras pequenas que saem muito caro. Claudia não entende como umas coisas pequenas custam tanto. Uma garrafa de vinho, um queijo branco pequenininho e esquisito, uns três shampoos e um quilo ou dois de carne e tá lá piscando: duzentos e quarenta e três reais. Débito ou crédito? A mulher olha pros dois lados e diz baixinho, no crédito, parcelado em três vezes, tá querida?

Quando isso acontece, Claudia só consegue exclamar calada: só pode ser brincadeira.

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Love in the elevator

Por Leandro Leal

Antes que a porta do elevador se fechasse, saiu dele uma mão, que a segurou. A gentileza respondeu ao pedido não feito por Felipe. Contrariando o costume, jamais se afobava diante de metrôs prestes a partir ou elevadores semicerrados. Não havia pressa maior que sua paciência para esperar os próximos. O anônimo, imaginou, devia ter visto seu reflexo se aproximando no espelho do elevador ou, quem sabe, apenas teria ouvido seus passos, lentos, mas pesados o suficiente para serem notados daquela distância.

“Obrigado”, disse Felipe. Recebeu de volta um meneio, sinônimo mudo de “não há de quê”. Engraçado lembrar, uma ex de muitos anos usava o gesto da mesma forma, também em resposta a agradecimentos. E, é certo, aquela seria a única semelhança entre Andressa e a gorducha quarentona com quem agora dividia o elevador. De cabeça inteiramente raspada, a não ser pelo chumaço comprido e descolorido na base da nuca, alargadores em ambas orelhas e tatuagens a cobrir toda a pele dos braços deixada à mostra pelas mangas arregaçadas do moletom, a figura esquisita e modernosa em nada se parecia com seu antigo amor. Quer dizer, em nada além dos olhos, que Felipe descobriu escondidos sob os óculos de grau vermelhos. Na nada atraente mulher, as esferas castanho-esverdeadas eram um oásis de beleza do qual ela não parecia se orgulhar, condenando-as à grossa armação.

Andressa, por sua vez, não poupava artifícios para evidenciar os olhos. Os benefícios de uma visão perfeita não a convenciam a tirar os óculos da gaveta, e ela nunca saía de casa antes de passar rimel, lápis e sombra. Do mesmíssimo castanho-esverdeado dos olhos da gorducha, os seus eram exibidos ostensivamente, como mísseis nucleares sobre carros alegóricos em desfile organizado por alguma ditadura asiática. Se nesse caso as ogivas serviam apenas para intimidar, no de Andressa as armas de destruição em massa eram usadas sem pudor. Com o olhar, furava filas, conseguia descontos, vencia discussões perdidas. Com o olhar, se quisesse, interromperia guerras. Com o olhar, mesmo sem querer, conquistou Felipe. Com a falta do olhar, causou a ele estragos semelhantes aos das tais ogivas quando acionadas. Convertida em Hiroshima, sua vida levou anos para desintoxicar-se de Andressa.

Felipe olhava para o outro lado do elevador, para a dona daquele outro par de olhos, e se perguntava: teria ela já causado tamanha dor a alguém? Algum dia, era possível, seus atrativos não se resumiram àqueles disfarçados pelos óculos. Nesse tempo, sua cabeça tinha sido preenchida por cachos dourados e sedosos como os de Andressa. No lugar das múltiplas tatuagens, nesse passado, apenas uma suave penugem cobria seus braços. Os muitos quilos excedentes não deformavam um corpo talvez perfeito, de pin-up cinquentista. Nessa época, Felipe teve certeza, os olhos da desconhecida foram capazes da mesma devastação proporcionada pelos de Andressa.

Faltavam dois andares até o seu, quando a estranha tirou os olhos do celular e levou-os aos de Felipe. Um olhar com o poder de gelar seu sangue, de acelerar seus batimentos. De interromper guerras, se quisesse. Foi quando abriu a boca:

“Que trânsito hoje, hein?”

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Mais propaganda com Neymar? É brincadeira, né?

Por Juliano Barreto, do Resenha em 6


Em nome do pai, do filho e de Gérson de Oliveira Nunes, o canhota, eu quero dizer que toda vez que vejo aquele moleque demente fazer um comercial tenho vontade de dar um tapa forte na mesa e gritar: “É brincadeira!”

O paspalho faz comercial de desodorante Rexona, né? Queria dizer à dileta empresa que não dá para se identificar com um cara que depila os sovacos. E faz isso por puro vacilo, porque pela idade dele, nem deve ter pelo ali. Para piorar, depois de fazer papelão nas Olímpiadas, reciclam o comercial colocando um texto dizendo que ele não desiste, que ele vai treinar mais. A empresa é que não desiste de fazer coisa errada. Parem de dar grana para esse babaca, tá certo?!

E ainda tem a Claro, que mostra o moleque dizendo que é muito bom economizar para fazer chamadas locais e mandar torpedos. Opa, pera aí, caceta!? Ele ganha três milhões de reais para jogar e se jogar, não precisa economizar centavos para mandar SMS. Pior ainda, como ficou claro no comercial da Nextel, quem cuida do dinheiro dele é o pai-cafetão dele. Neymarketing é “apenas um menino brincando com sua bola”.

Por esse mesmo motivo, é ridículo demais ver o escrotinho da Vila dirigindo Gol, usando talco barato, assistindo televisão com óculos de 3D ou desfilando de cueca e meia da Lupo. Nem vale a pena dizer o quanto é estúpido um empresa de shampoo patrocinar o cara que tem o corte de cabelo mais ofensivo do mundo –posição reforçada a cada semana com uma nova invenção ridícula, como num dia em que ele estava com o cabelo da RêBordosa.

Enquanto isso, toda foto da vida real que mostra o maldito, ele está fantasiado de  marcas que não pagam nada a ele. São fones da Beats, iPad, iPhone e roupas de grifes gringas que, como todo boleiro, ele quer mostrar para dizer que é fodão. Até aí tudo normal, mas o que pensam os departamentos de marketing na hora de colocar toda a grana num cara que a cada segundo fica mais antipático?

É óbvio que as empresas devem querer mostrar seus produtos com o craque da vez, o cara que traz a imagem do futebol moleque (que não existe mais) que ainda por cima é jovem e ousado. Mas esse clichê fabricado não engana mais ninguém ou, pelo menos, não deveria. É um insulto à inteligência de quem consome e uma preguiça monstra de quem cria as propagandas.

Só não fico mais irritado com isso, por que sei que é passageiro. Em 2006, Ronaldinho Gaúcho fazia comercial de moto, de desodorante, de cerveja, de banco, de tênis. Só faltou fazer propaganda para a Colgate fantasiado de dentista. O tempo passou, o cara murchou e substituíram ele pelo craque da vez. A coisa vai e volta e ninguém questiona. O pai do Neymar quer levar vantagem em tudo e muita gente vai no vácuo.

Por isso, sinto muita falta do velho Gérson, trabalhando de comentarista, para dar um tapa na mesa e dar um belo esporro no moleque e em quem fica babando os ovinhos depilados dele. É brincadeira! Tá certo?

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No porta-malas

Por Xandão

Ele ficou lá, sozinho, na calçada.

Observou enquanto ela se afastava até sumir de sua vista.

Como a fome não cabia em seu Fusca, entrou na lanchonete ao lado e esmagou suas mágoas com um grande x-qualquer coisa gordo de batatas fritas.

Satisfeito, dirigiu-se para seu fiel companheiro.

Os pedaços de orgulho que ainda restavam cabiam todo no pequeno porta-malas.

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A fera do rock

Por Juliano Barreto, do Resenha em 6

Todo desajeitado, Jon Spencer carrega seu teremim pela rua. É um modelo antigo com um console de madeira que deixa o instrumento ainda mais difícil de ser transportado. Spencer está cansado e carrega no semblante o mesmo olhar que Bill Murray transformou em marca registrada nos últimos vinte anos: cansado (da vida), sem esperança (nos outros) e ao mesmo tempo irônico (consigo mesmo).

Mas o cara tem uma missão. Não importa que as pessoas olhem com deboche para suas calças de couro e suas botas de pele de cobra. Ele tem pressa. O ensaio já vai começar e os outros caras da banda estão esperando ele naquele cubículo congelante. Subir uma escada com um teremim não é fácil, mas as porradas ocas do bumbo da bateria transpõem as paredes da sala de gravação e servem de estímulo para vencer os últimos degraus e empurrar a porta que deixa a Blues Explosion separada do resto do mundo.

Spencer arruma o cabelo deixando-o ainda mais bagunçado. Deixa o teremim para outra hora e ergue a guitarra. Russell e Judah já estão prontos, aquecidos, e querem começar logo. Dentro de poucos dias começa a turnê e ninguém sabe ainda quais das músicas novas vão entrar para a setlist. O técnico de som dá o OK. Tudo pronto. Logo depois dos primeiros acordes, Jon Spencer grita no seu microfone anabolizado de efeitos de distorção:
- Bom dia damas e cavalheiros, esta é a BLUUUUUUUUEEEESSSSS Explosion. Somos de Nova  York. A cidade de Nova York ainda é a número um!

O guitarrista se vira para o batera já esperando ser olhado com a complacência com que ele é olhado. Fora eles, Spencer e o técnico de som, não há mais ninguém no estúdio e mesmo assim o vocalista está ali, agarrando o pedestal do microfone com suas vogais triplicadas e tocando como se estivesse no palco, encerrando um show maior que a soma de WoodStocks, Loolapaloozas, Glastonburies e Coachelas. Começou o transe.

A primeira música sai perfeita. Vem a segunda, também perfeita. Na terceira, o pessoal pragueja contra o ar condicionado, mas a música sai ainda mais rápida e encaixada do que o esperado. Jon Spencer percebe um instante de vacilo dos outros caras da banda e emenda um estrondoso “C’mooooooooooooooooon!” para ninguém ter dúvida de que a ordem é continuar. Música atrás de música, arrebentando amplificadores, cordas, baquetas e tudo o mais.  Todo mundo para de contar quantas músicas já foram tocadas e o frio do estúdio vira calor amazônico. O ensaio vira uma grande jam session com covers, versões e solos malucos.

No meio disso, o técnico do estúdio precisou sair para fumar um cigarro. Quando voltou, encontrou os músicos ainda mais ensandecidos, tentando acompanhar a pegada de Spencer. Foi quando coçou o queixo e falou para ele mesmo:

- Caramba, esse Jon Spencer é fera!

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